No dia 22 de abril de 2007, eu fiz uma das viagens mais pitorescas de minha vida. O ônibus que fazia o belo caminho de Vicuña para La Serena, ambas no Norte Chico do Chile, tinha um boneco enorme da Pantera Cor-de-Rosa pendurado perto do motorista e tocava música tradicional chilena. Aquela cena recorrente em filmes americanos quando o pessoal pega um ônibus para Tijuana estava acontecendo ali.
Mas o que marcou aquele dia, foi descobrir que se tivesse ficado mais um dia em Pucón, no Sul, teria sentido um terremoto bem forte, que inclusive matou algumas pessoas. Passei 14 dias no Chile e não senti um único terremoto, exceto talvez no shopping Alto Las Condes, em Santiago, mas creio que fosse somente uma vibração natural do chão nos andares acima de vãos.
Ontem, 22 de abril de 2008, estava ao telefone, com o processador de textos aberto numa página em branco, uma dose sem gelo, como sempre, de Chivas Regal 12 anos sobre a mesa quando, ao me sentar, senti algo estranho. Fiquei meio calado e não dei bola para a pessoa no outro lado da linha. “Gozado”, pensei, “ainda nem bebi o whisky. E precisa muito mais do que uma dose para eu ficar tonto”. Olhei para a direita e, com um ponto de referência externo, vi a parede do prédio balançar em todas direções.
Levantei assustado, não sei se porque o prédio balançava ou porque via coisas, e tudo parou de tremer. Tomei um gole do whisky e voltei a meu interlocutor. Sentei novamente e a parede do prédio ainda continuava balançando em todas direções. Levantei novamente e reparei que, como no Jurassic Park, havia ondas no copo de Chivas. Corri até a cozinha e havia ondas nas panelas sujas e cheias de água dentro da cuba. Eram ondas residuais, porque o tremor já havia acabado.
Encerrei a conversa, da qual não me lembro, e montei um sismógrafo na janela. Bom, na verdade era um pedaço de plástico apoiado na moldura de alumínio, se ele caísse, o prédio estava tremendo. Olhei para minha página em branco e liguei para outra pessoa. Esta conversa foi interrompida por um morador do 15º andar que, desesperado por seu garfo ter caído do apoio no prato, desceu de escada até o terréo e implorou para que a pessoa com quem eu falava saísse de seu prédio.
Meu “sismógrafo” caiu. Gelei e virei o copo de whisky de uma vez. Criei coragem, olhei para o lado e vi que era só o gato que tem mania de esfregar o focinho em tudo que encontra pela frente. Voltei à adega e me servi de mais uma dose de scotch, desta vez um Pinwinne 8 anos e larguei minha página em branco.